Meus direitos

J.J.

Há algum tempo li O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs. Sabe, cristãos também leem livros — pelo menos penso que deveriam, tanto livros cristãos quanto “seculares” (não necessariamente nessa ordem). Enfim, não vamos perder o foco.

Lá pelo meio do livro o personagem Enoch é apresentado. Ele é uma das várias crianças peculiares e essas “peculiaridades” são, na verdade, poderes. O caso é que o do Enoch me fez pensar um bocado. Veja só:

Devo ter cochilado, porque acordei no meio da manhã com alguém cutucando meu pé. Entreabri um olho para descobrir um soldadinho tentando se esconder dentro de meu sapato, mas ele se prendeu nos cadarços. Tinha as pernas juntas e rígidas, e era meio estranho, com uns vinte centímetros de altura e usando trajes militares. Observei-o tentar se livrar por um instante e depois ficar rígido — um brinquedo mecânico cuja corda terminara.

Desamarrei o sapato para soltar o soldado, então o virei de costas em busca da chave para lhe dar corda outra vez. Não encontrei nenhuma. Olhando de perto, era algo estranho, de aspecto tosco, que tinha uma bola de barro como cabeça e uma marca de dedo para assinalar sua face.

— Traga-o aqui! — Ouvi alguém gritar do outro lado do jardim. Havia um garoto sentado sobre um toco de árvore, à beira da floresta, acenando para mim.

Sem qualquer outro compromisso importante, peguei o soldado de barro e saí andando. Havia outros dispostos em torno do garoto — toda uma coleção de soldadinhos de corda, cambaleando de um lado para o outro, como robôs defeituosos. Quando me aproximei, o que estava em minha mão começou a se contorcer, quase como se tentasse escapar. A corda dele não tinha acabado, afinal de contas. Coloquei-o junto dos outros e limpei a sujeira de barro das minhas calças.

— Eu sou o Enoch — disse o garoto. — Você deve ser “ele”.

— Acho que sou — respondi.

— Desculpe se ele o perturbou — Enoch disse, conduzindo o soldado que eu devolvera até os outros. — Sabe, eles têm ideias próprias. Ainda não estão bem treinados. Eu só os fiz na semana passada. — Ele falava com um leve sotaque londrino. Círculos negros cadavéricos circundavam seus olhos como os de um guaxinim, e seu macacão, o mesmo que usava nas fotos que eu vira, como um uniforme que nunca tirasse, tinha marcas de lama e terra. Não fosse seu rosto rechonchudo, ele poderia ser um limpador de chaminés tirado de Oliver Twist, mas nenhuma dessas crianças jamais precisava implorar por seu mingau ou por uma segunda porção de nada.

— Você que os fez? — perguntei, impressionado. — Como?

— São homunculi — respondeu. Às vezes ponho cabeças de bonecas neles, mas dessa vez estava com pressa e não me dei ao trabalho.

— O que é um homunculi?

— Mais de um homunculus — respondeu, como se fosse algo que qualquer imbecil soubesse. — Algumas pessoas acham que o certo é homúnculos, mas acho que isso soa bem idiota, não acha?

— Com certeza.

O homem de barro que eu devolvera a ele saiu andando outra vez, então Enoch o jogou de qualquer jeito junto com os outros. Eles pareciam totalmente confusos, batendo uns nos outros como se estivessem muito nervosos.

— Lutem , seus frescos! — ele ordenou aos homens de barro errantes, e nesse momento eu me dei conta de que os outros não estavam apenas se esbarrando, mas se socando e se chutando. O homem de barro que tinha fugido, porém, não estava interessado em lutar e, quando ele começou a se afastar outra vez, Enoch o agarrou e arrancou suas pernas.

— É isso o que acontece com desertores do meu exército! — gritou, e jogou o aleijado na grama, onde ficou se contorcendo de modo grotesco enquanto os outros caíam sobre ele.

— Você trata todos os seus brinquedos assim?

— Por quê? Está com pena deles?

— Não sei. Devia estar?

— Não. Eles não estariam vivos se não fosse por mim.

Ri, e Enoch me olhou com expressão séria.

— Qual é a graça?

— Você fez uma piada.

— Você é meio estúpido, hein? Veja aqui. — Ele pegou um dos soldados e tirou suas roupas, então o quebrou ao meio e removeu do interior pegajoso de seu peito um coraçãozinho pulsante. O soldado ficou imediatamente imóvel. Enoch segurou o coração entre o polegar e o indicador para que eu o visse.

— É de rato — explicou. — É isso o que posso fazer: tomar a vida de uma coisa e dá-la a outra, mesmo que seja de barro como esta, ou que já tenha estado viva mas não esteja mais. — Ele guardou o coração gosmento no macacão.

Não sei o que você sentiu ao ler o relato acima, mas minha primeira reação foi de revolta. Revolta contra o Enoch, afinal, ele tratava “vidas” (ou algo muito próximo) com um desprezo hediondo. Depois pensei melhor, principalmente quando percebi que ele apenas usava seu poder, sua “peculiaridade” — dar vida a objetos inanimados — para seu próprio deleite (e, oras, os bonequinhos tinham sido criados por ele mesmo!). Será que ele não tinha razão ao afirmar: “Eles não estariam vivos se não fosse por mim”? Pare e pense comigo: por que ele deveria agir diferente disso?

Percebi que minha revolta inicial foi justamente por me identificar com os bonequinhos — afinal, o que são os homens além de bonequinhos de barro feitos por alguém que é capaz de dar ou tirar a vida quando bem entende? — Depois percebi que a mesma revolta era tão infundada quanto deveria ser, pois também há uma certa identificação entre o menino Enoch e Deus (será que isso não foi intenção do autor?), afinal, eu também “não estaria vivo se não fosse por ele” (na verdade, ninguém estaria).

Você pode agora estar pensando: “Que absurdo!” E eu te digo: — Parabéns! Você reagiu exatamente como qualquer ser humano, pecador que é, reagiria. Aliás, essa revolta já foi prevista por Paulo em sua carta aos romanos, assim como Deus também nos deu a resposta que, pelo jeito, ainda precisamos ouvir. Vamos lá?

[…] a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que concebeu de Isaque, nosso pai
(pois os gêmeos ainda não tinham nascido, nem praticado o bem ou o mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), se disse: O mais velho servirá ao mais novo. Como está escrito: Amei a Jacó, mas rejeitei a Esaú.

Que diremos? Há injustiça da parte de Deus?

De modo nenhum. Porque ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e compaixão de quem eu quiser ter compaixão. Assim, isso não depende da vontade nem do esforço de alguém, mas de Deus mostrar misericórdia. Pois a Escritura diz ao faraó: Para isto mesmo te levantei: para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Portanto, ele tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer.

Então me dirás: Por que Deus ainda se queixa? Pois, quem pode resistir à sua vontade? Mas quem és tu, ó homem, para argumentares com Deus? Por acaso a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou o oleiro não tem poder sobre o barro, para com a mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, prontos para a destruição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que preparou de antemão para a glória, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?

Olha, eu não sei se esse Ransom Riggs, o autor desse livro, é cristão ou não, mas que ele copiou captou muito bem a ideia, isso não tenho dúvidas.

E aí? Está respondido? Continua revoltado?

S.D.G.

TAM

One thought on “Meus direitos

  • 3 de Abril de 2018 at 22h38
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    Bela sacada do livro!! Um paralelo bem interessante aí.
    Eu tive uma ideia bem próxima disso.

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