Albert Camus: Um pensador do século XX

Albert Camus — autor de A peste, o livro indicado por J. Scott Horrell, nosso Peixe Grande de maio — foi um escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta nascido em 7 de novembro de 1913 na costa da Argélia numa cidade chamada Mondovi, hoje conhecida como Dréan. Filho de Lucien Auguste Camus, um francês nascido na Argélia, e de Catherine Hélène Sintès, também nascida na Argélia, com origem minorquina. Camus conheceu cedo o gosto amargo da morte. Seu pai morreu em 1914, na batalha do Marne durante a Primeira Guerra Mundial. Sua mãe foi obrigada a mudar-se para Argel, para a casa de sua avó materna, no famoso bairro operário de Belcourt onde, anos mais tarde, durante a guerra de descolonização da Argélia houve um massacre de muçulmanos. Apesar de uma infância extremamente pobre, Camus sempre declarou que sua infância fora marcada por uma felicidade ligada à natureza. Ele contou mais sobre seus dias infantis no livro O avesso e o direito, mas também em toda a sua obra. Na casa, moravam além do próprio Camus, seu irmão que era um pouco mais velho, sua mãe, sua avó e um tio um pouco surdo, que era tanoeiro, profissão que Camus teria seguido se não fosse pelo apoio de um professor da escola primária, Louis Germain, que viu naquele pequeno pied-noir um futuro promissor. A princípio, sua família não via com bons olhos o fato de Albert seguir para a escola secundária, sendo pobre, e o próprio Camus diz que tomar essa decisão foi difícil para ele, pois sabia que a família precisava da renda do seu trabalho e, portanto, ele deveria ter uma profissão que logo trouxesse frutos — como a profissão do seu tio. No fundo, Camus também gostava do ambiente da oficina onde o tio trabalhava. Há um conto escrito por ele que tem como cenário a oficina, e no qual a camaradagem entre os trabalhadores é exaltada. Durante o segundo grau, ele quase abandonou os estudos devido aos problemas financeiros da família. Foi neste ponto que um outro professor foi fundamental para que Albert seguisse estudando e se graduasse em filosofia: Jean Grenier. Tanto Grenier quanto o velho mestre Guerin foram lembrados pelo escritor em suas obras.

Trabalhou como jornalista militante, se envolvendo na Resistência Francesa, durante as batalhas morais no período pós-guerra. Seu profícuo trabalho inclui peças de teatro, novelas, notícias, filmes, poemas e ensaios onde ele desenvolveu um humanismo baseado na consciência do absurdo da condição humana e na revolta como uma resposta a esse absurdo. Para Camus, essa revolta leva à ação e fornece sentido ao mundo e à existência, e “Nasce então a estranha alegria que nos ajuda a viver e a morrer”.

Em 1957, Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “por sua produção literária importante, que com lúcida sinceridade ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.

Trabalhou por pouco tempo como jornalista editor do jornal Combat (jornal francês fundado durante a Segunda Guerra Mundial, sendo um diário clandestino editado pela Resistência Francesa com a ajuda de Albert), mas foi considerado um dos mais ousados jornalistas. Como periodista, tomou posições incisivas em relação a Guerra de Independência Argelina e ao Partido Comunista Francês.

Ao longo de sua carreira, Camus se envolveu em diversas causas sociais, protestando veementemente contra as desigualdades que atingiam os muçulmanos no norte da África, defendendo os exilados espanhóis antifascistas e as vítimas do stalinismo. Foi ainda um entusiasmado defensor da objeção de consciência (pessoas que seguem princípios religiosos, morais ou éticos de sua consciência, princípios estes que são incompatíveis com o serviço militar, ou as Forças Armadas como uma organização combatente).

À margem de outras correntes filosóficas, Camus foi, sobretudo, uma testemunha de seu tempo. Intransigente, recusou qualquer filiação ideológica. Lutou energicamente contra todas as ideologias e abstrações que deturpavam a natureza humana. Dessa forma ele foi levado a se opor ao existencialismo e ao marxismo, discordando de Sartre e de seus antigos amigos. Camus incorporou uma das mais elevadas consciências morais do século XX; o humanismo de seus escritos foi fundamentado na experiência de alguns dos piores momentos da história. Sua crítica ao totalitarismo soviético lhe rendeu diversas retaliações e culminou na desavença intelectual com seu antigo colega Jean-Paul Sartre.

Albert, em 1949, visitando o Cristo Redentor, RJ.

Em 1949, visitou o Brasil entre 5 e 7 de agosto. Conheceu o Iguape, onde prestigiou a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape, em São Paulo, acompanhado pelo escritor brasileiro Oswald de Andrade, Paul Silvestre, um adido cultural francês, e Rudá de Andrade, filho de Oswald. O pequeno grupo ficou hospedado em um quarto do hospital “Feliz Lembrança”, pois todos os hotéis estavam ocupados devido às festividades. Dessa visita surgiu o conto — um tanto irônico — intitulado “La Pierre qui pousse” (A Pedra que brota), em seu livro O exílio e o reino, sobre um engenheiro francês d’Arrast em passagem por Iguape. A santa imagem, após ser encontrada na praia do Una, na Jureia, em 1647, foi levada à principal fonte do município, onde deveria ser lavada para remoção da areia e do sal. No local onde está a pedra que cresce foi construída uma pequena capela abobadada, popularmente chamada de Gruta do Senhor.

Os romeiros, acreditando nos poderes milagrosos da pedra sobre a qual havia sido colocada a imagem para ser lavada, começaram a retirar-lhe lascas. Após séculos tendo lascas removidas, porém, a pedra continuava com o mesmo tamanho, dando origem à lenda da pedra que cresce.

Morreu em janeiro de 1960, vítima de um acidente de automóvel. Na sua maleta estava contido o manuscrito de O primeiro homem, um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto, ele escreve que aquele romance deveria ficar inacabado. Sua mãe, Catherine Sintès, morreu em setembro do mesmo ano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *